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20/06/2012

Momento Azul 006 - TGO


  MOMENTO AZUL __________ .  

Só pra fazer você pensar! por Thiago Zazatt

Eu estava com fome naquela hora. Dentro do ônibus mais lotado, mais barulhento e mais estressante da cidade para o horário, ainda tive a oportunidade de presenciar aquela cena para a qual ainda não escolhi o adjetivo adequado.

Duas meninas em idade escolar, talvez uns 7 ou 8 anos, pequenas, de uniformes brancos e sujos, recém saídas da escola, acompanhadas de quem eu poderia identificar como avô ou pai mais velho, um senhor bem surrado pelo tempo e que ainda tinha que extrair de seus músculos e do olhar um pouco abatido, muita paciência e disposição para estar ali naquele momento. Eu mesmo não queria estar ali e acho que metade das pessoas concordariam comigo se pudessem sair e voltar pra casa.

Ele, sentado, elas em pé, bem à sua frente. A menor com um pacote de salgadinhos de milho, crocantes, amarelos, daqueles que cheiram mal mas a gente adora colocar na boca em momentos de semi-fome. Embalagem ainda fechada, de barulho irritante, que ela insistia com alguma força para tentar abrir. A outra, um pouco maior, com um pacote grande de biscoitos do tipo Wafer.

Eu sou daqueles que acredita que Deus, quando criou os biscoitos Wafer, estava no auge de sua inspiração saborosa. Com recheio de chocolate, como os que eu estava vendo ali, faziam salivar. Ela brigava com o pacote, tentando abrir, buscando a fitinha vermelha que teoricamente serve pra facilitar essas atividades... insistia mais que a menor... girava o pacote nas mãos, apertava, buscava com as unhas. Eu olhando, o avô olhando, mais alguns escolares olhando, a irmã menor olhando... aquela cena era de dar nos nervos.

A menor, impaciente, deixou o pacote de salgadinhos no colo do avô, tomou o de biscoitos das mãos da irmã, puxou com violência e determinação. A outra ficou assustada e com raiva. E o avô só olhava. Ela disse alto: - Tem que puxar a fitinha vermelha, tem que puxar pra abrir.

Veio a revanche. A maior puxou com mais força ainda, com mais violência ainda, apertou o pacote, fez dobrar a embalagem, até foi pra trás com tamanha força. - O pacote é meu. Eu que vou abrir. Se você pegar eu jogo seu "Skiny" pela janela.


Eu suspirei.

Era uma ameaça e tanto. A outra só fez responder na mesma moeda. - Se você jogar o meu, eu jogo sua bolacha também.


Eu arrepiei.

O avô, calças azuis, camisa de botão marrom, boné da campanha de algum político, chinelo bem usado e sujo, até ali só olhava - calmo demais. O barulho do ônibus, as crianças gritando, as pessoas falando, os outros carros na rua, meus próprios pensamentos, eu já não ouvia mais nada disso. Só prestava atenção aos acontecimentos da dupla cruel. Onde é que estão os Direitos Humanos nessas horas?

A menor puxou o pacote, apertou já expressando a coragem diante da ameaça da irmã maior. Como quem estivesse duvidando, fez só pra ver o que aconteceria. Em velocidade rápida demais para que eu pudesse acompanhar com os olhos, ela abriu o pacote. Vi farelos de bolacha Wafer voarem pelo ar.

A outra, pegou o pacote de salgadinhos do colo do avô e jogou pela janela. Ainda o vi caindo enquanto o ônibus seguia. Não sei o que ele sentia, mas vi que, assim como eu, não acreditava. A que tinha aberto o pacote, ainda com ele na mão, repetiu o ato, jogou os biscoitos Wafer pela janela e começou a chorar.

Eu também quis chorar. Agora eu já ouvia tudo. Todos os barulhos. Uma gritando com a outra, os gritos de todos no ônibus... tudo. Eu só não ouvi meus pensamentos que tentavam justificar alguma coisa pra que aquilo tivesse acontecido. Aliás, também não ouvi nenhum som vindo daquele senhor. Ele não disse nada. Nem ameaçou dizer.

As duas sem nada nas mãos. Doeu em mim.
Até agora não pensei em nada pra usar como adjetivo pra essa cena.
Acho que foi o grito mais silencioso que eu já vi. O velho chorando me fez chorar.


Thiago Zazatt - Não é fotógrafo. Apenas coleciona emoções, sentimentos e sensações que as fotos podem carregar. É marido da dona desse blog, está passando apenas pra falar isso e pode voltar à qualquer momento. A ordem era contribuir... aos poucos vou contribuindo.