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08/05/2012

CRÔNICAS DE FERNANDO

Basta que me olvides






Já era madrugada e o sono não chegava. Um incômodo grande fazia com que a cama se tornasse grande e desconfortável. Olhava para o teto. Sentia-se sozinha, embora seu marido estivesse ali, do lado. Ele dormia. Parecia que estava tudo certo, mas para ela a sensação de solidão era tremenda. Por onde andaria aquele amor arrebatador que a fazia perder o fôlego, a sensatez? Havia se perdido pelos labirintos da existência, escapado pelo vão dos dedos como a água teimosa que se derrama em sua sede de liberdade.

O silêncio da madrugada era seu cúmplice ou seu carrasco? Ao seu lado, o ilusionista dormia o sonho dos anjos. Ou seria o sonho dos demônios? As lágrimas rolavam molhando o travesseiro. Precisava chorar para esvaziar a si mesma, da angústia, do medo, expulsar o desamor de seu coração incrédulo. Acordaria com o rosto todo deformado no dia seguinte, mas não tinha problema. Precisava chorar, era necessário. As lágrimas represadas não combinavam com o deserto que se fazia em seu coração.

Caminhou até o baú onde estava o resto de sua vida, fragmentado em poemas, cartas e cartões. Acreditava que ali estava sua época de felicidade. Leu um por um. Uma névoa de lembranças a envolveu e por um momento sorriu distante. Apegada ao passado, queria por tudo, se pudesse, vivê-lo novamente, para voltar ao dia em que ele chegou e disse que não dava mais. Ela implorou para que ele ficasse, não poderia viver com sua ausência. Implorou, pisou em seu orgulho, lançou fora seu amor próprio para que ele ficasse. Com muito pesar, resolveu ficar. Dormiram na mesma cama, mas ela estava sozinha com sua dor e humilhação.

Se pudesse voltar, diria a ele que se fosse. Pudesse naquele instante o futuro se descortinar como uma nuvem de fumaça, como uma névoa que se vai quando chega o Sol com sua exuberância. Se soubesse o que lhe reservaria o futuro, teria chorado tudo de uma vez, morreria aquele dia aquele amor bandido. Mas não, insistira e agora morria um pouco a cada dia, sufocada pela indiferença e pela insatisfação. Vivia a frustração de sua abstração.

Foi até o quarto novamente, olhou para aquele corpo que repousava impassivo, ressonando em seu travesseiro . Vivia um paradoxo, queria a sua ausência, mas não suportava a idéia de vê-lo partindo com suas malas e ela ficando, sozinha. Sentia pena. Por onde ele andaria em sua ausência? Quem lhe daria guarida em suas noites de desamparo e solidão? Ele era um coitado e não ela. Era sim. Ela era forte o bastante para reconstruir a sua vida em outro lugar, outro espaço que fosse só dela. Chorou mais uma vez a despedida antecipada. Ligou o rádio que tocava a música de Ricky Martin, Talvez. A letra era muito parecida com a sua dor.

Voltou ao quarto onde estava o guarda-roupa, pegou a sua mala. Dobrou cuidadosamente peça por peça. As lágrimas caiam, mas estava decidida. Ele não poderia deixá-la, mas ela poderia abandoná-lo. Haveria de reconstruir a vida em algum lugar, longe, onde não houvesse a possibilidade de encontrá-lo novamente. Não queria mais respirar o mesmo ar daquele amor que a envenenava e lhe despertava o deserto de sua vida. Não pegou muita coisa, apenas o necessário para partir.

Foi ao quarto, olhou mais uma vez o corpo do companheiro na penumbra, simulou um beijo saudoso e partiu rapidamente para não correr o risco de desistir mais uma vez.

Não deixou nenhum bilhete, nenhuma explicação. Partiu como quem morre de repente. Saiu pela rua deserta, a brisa da madrugada a beijar-lhe o rosto. Olhou com amor para aquela rua que tantas vezes testemunhara a sua solidão. Guardou cada pedaço dentro de si. Virou a esquina e definitivamente deixou o sofrimento para trás. Chamou o táxi. Partiu, para a vida.